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Mensagens

A mostrar mensagens de 2010

"Hemingwices"

Gostava de partilhar a minha infelicidade por não conseguir terminar de ler o livro de Hernest Hemingway, "Por quem os sinos dobram". Será possível não ficar agarrada à escrita do vencedor de um prémio Nobel da Literatura e de um prémio Pulitzer? Que grande ignomínia! Na verdade, por mais que o tenha passeado debaixo do braço este Verão, mesmo depois de o ter levado comigo para Espanha, país onde decorre a acção, ele ficou imune aos meus olhos suplicantes que lhe pediam que me fizesse apaixonar. Bem, depois de discutir o assunto com a minha mãe e outras pessoas, decidi que o problema é do Hemingway e da sua escrita. Como um amor difícil depois de mil esforços, este livro tornou-se intragável. Embora possa ser considerado um relato jornalístico da guerra civil espanhola , torna-se excessivamente moralista e partidário, o que é o antídoto do bom jornalismo: está claro, o senhor Hemingway está do lado dos "vermelhos" e os maus da fita serão sempre os fascistas, que per...

Irene

Sonhei que se abria uma porta, E dentro dessa porta estavas tu. Trazias na mão um flor, De aparência exótica, vermelha, com um doce e cândido perfume de infância, amor e saudade. Tentei agarrar essa flor e guardá-la comigo. Mas era impossível, pois tu e a flor eram um sonho. No dia seguinte regressei ao mesmo lugar onírico, à mesma porta secreta. Estavas lá tu: Irene, uma linda princesa grega, morena num vestido branco de linho. Mas também uma mãe adorável, forte, especial, única e maravilhosa. Busquei a flor por todos os cantos do sonho, mas desta vez tu não a tinhas. E foi nesse momento que descobri que a flor estava afinal comigo, Dentro de mim. A flor és tu e a vida tão bonita e preciosa que me deste. A flor mais preciosa.

Ao Porto

Descobri na feira do Livro uma Colectânea de Poesia sobre o Porto ( "Ao Porto" - Adosinda Providência e Madalena Torgal Ferreira) - que era efectivamente o único que restava. Olhava-me na ingenuidade da sua capa azul celeste, desde o fundo de uma prateleira, entre outros livros da mesma editora ( Dom Quixote) um de poesia sobre Lisboa e outro sobre Coimbra. Os poetas portugueses que integram a Colectânea são muitos e bons: desde Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner, Vasco Graça Moura, passando por outros menos conhecidos, mas de igual ou superior inspiração. Hoje partilho este meu tesouro que para já descansa na mesinha de cabeceira, feliz também por me ter encontrado. Cito agora um poema de Albano Martins, página 48. Palavras, versos que traduzem o sentimento de ser do Porto, que me levam pelos cheiros e emoções do S.João, pela ribeira, pelas ruas, pelas gentes, pelo rio, pelo granito, pelo vinho, pela cidade onde me encontro e encontro a alma de todos aqueles que a amam. ...

Mundo Kafka

Dentro de mim Franz Kafka passeia por um livro inacabado, Milhares de transformações acontecem em simultâneo, Com muitas personagens da realidade e ficção, Palavras pequenas de levar no coração, ou grandes de levar na cabeça. Dentro de mim os dias passam diferentes todos os dias, Há horas que têm o sabor da morte,segundos que escondem vidas. Dentro de mim, Sorrisos abraçam-me na doçura simples da efemeridade, Ao mesmo tempo que milhares de trocas químicas provocam lágrimas nos meus olhos. Dentro de mim o mundo acaba e começa ao mesmo tempo. Por isso amo a vida, mesmo sem a entender.

Elogio ao amor (puro)

Miguel Esteves Cardoso in jornal "Expresso" Elogio ao amor "Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem...

Sagres, Algarve, Novembro 2009

Há lugares que definitivamente nos roubam o ar, nos fazem pensar que podíamos ser felizes ali, e acordar todos os dias com aquela paisagem na nossa janela como um postal gigante , aquela visão que um dia os nossos dedos desenharam na areia, ao lado de castelos e piratas. Fui a Sagres em trabalho, com uma máquina fotográfica pesada e desconfortável ao ombro, daquelas que nos rotulam, como as mulheres com experiência às mais novas: " tens obrigação de tirar uma boa fotografia". No entanto, a cada passo que dava, a cada falésia que avistava, tinha medo de continuar a caminhar, com o risco de cair e talvez voar no sonho que construí na praia. Sim, é essa a sensação. Contornar o recorte das escarpas, sentir na boca, a maresia sensual do atlântico, fechar os olhos e no emaranhado de cabelos, vislumbrar pela primeira vez, um lugar onde é possível o silêncio, onde é possível a beleza sem legendas.

Chuva e poesia

Por que é que quando chove nos apetece escrever poesia,mesmo que sejam os mais tristes versos?(ou as mais irónicas versões de versos ) Talvez porque hoje esteja a chover sem parar e o Porto pareça um monstro muito zangado com a barba por fazer. Talvez porque o vento seja um tubo de ensaio onde o frio e dor se entrelaçam como uma velha e um gato enroscados no sofá. Ou Talvez porque o que se passa lá fora esteja a acontecer dentro de nós em simultâneo, como essas modernas video-conferências. Ou então, Temos medo que pare de chover e de ver o sol aparecer no meio das nuvens cinzentas. Depois da chuva, os restos da tempestade ficam a dizer-nos adeus do topo dos pauzinhos de relva. Como milhares de estrelas a brilhar no universo da nossa tristeza.