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The real train(um ano depois)

Foto: FC
Existem dois tipos de comboio: os de sonho e os reais. O primeiro nasceu com Watt, com a sua bela máquina a vapor adaptada a comboio, transformando-se depois em brinquedo.O outro, o comboio real é o que dá corda aos nossos desejos, vontades,sentimentos mais secretos, medos, e incertezas. Descobri o comboio onírico durante o encantamento da infância. O comboio real,esse,conheci contigo.

.....
Estação de Campanhã. Sete da tarde. A voz impessoalmente treinada anuncia mais uma partida do alfapendular em direcção a Lisboa. Fiquei feliz por teres vindo.Desta vez, quis presentear-te com um vinho do Porto, um dos antigos da minha família. Não sei se chegaste a ler a carta que coloquei junto da garrafa. Terás lido ainda no comboio? No aeroporto?Ou muito tempo depois, num Natal com a família, a milhas de distância de Portugal? Independentemente do tempo, espaço ou motivo, espero que tenhas percebido o sentido e talvez esse se torne uma forma de ubiquidade entre os dois e não de uma banal inconformidade.Na folha rabiscada na minha caligrafia eternamente adolescente, falo-te na filosofia do vinho com o nome da cidade que ambos amamos.Um vinho que podia ser um caleidoscópio, um vestido vermelho-uva, mistura perfeita do Douro, dos gatos,dos livros, das ruas sem fim,dos encontros, dos desencontros, dos beijos atirados em dedos, dos dedos a calarem beijos, das palavras, do silêncio, de ti ,de mim, de ti sem mim, de mim sem ti.... Dou-te um rio: no lugar dos sedimentos, deixo-te todos os sentimentos que fazem o meu amor por ti. Por isso te digo no Post Scriptum para beberes vinho do Porto “every moments of your life”. Mas mesmo que não tenhas lido a mensagem, alguma coisa nos teus olhos me disse que mais tarde ias entender.Percebi isso quando pelo vidro do teu vagão vi correrem duas estrelas azuis. Sorria-te, um sorriso branco, com uma calma que nunca antes tinha sentido à tua beira.Depois fui andando decidida, no sentido contrário à linha, como nos filmes em que não se quer ver a pessoa querida ir embora.Mas se o fiz, foi inconscientemnte. E magia, estava radiante , como uma menina que acredita no final feliz das histórias de amor. Provavelmente, tu eras a pessoa mais triste daquele comboio. Eu, a rapariga mais feliz do mundo daquele cais subitamente só, povoado apenas pelo vapor que não cheguei se quer a ver. Era um dia de Maio, solarengo. Pensava que a Primavera tinha chegado finalmente contigo e que desta vez tinha vindo para ficar.Foi a última vez que te vi.

Para o Gary

Comentários

Sonetista disse…
detesto estações, aeroportos, fileiras de taxi... lugares detestáveis...
bebemos?
apetece rir das coisas, comemorar esses aniversários dos eventos da vida com algum alarde...
saudades, pequenina.
Unknown disse…
Dos textos mais bonitos que escreveste, sem dúvida.

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