Havia uma porta
E dentro dessa porta havia um terraço,
Mais à frente, um casario branco, a recortar o azul do mar.
E na janela, um gato gordo e amarelo,
A desafiar todas as leis da física,
No alto da sua imoral indiferença.
Mulheres e homens competem em sensualidade
E óleo de coco na praia.
E o aroma quente, de rosmaninho e oliveiras entra-nos
pelo corpo dentro e pede-nos para fazer parte deste
quadro de verão azul.
*
É absurdo ser-se triste aqui. É contra-natura, uns diriam.
Quase tão absurdo como um gato de óculos de sol a ler Camus
na praia
Deitado numa espreguiçadeira de riscas azuis
( Obviamente, em vez de estar no mar a deliciar-se em belos
mergulhos mediterrânicos).
No entanto, é tão possível como aquela mulher de negro
A chorar lágrimas sobre a cal tão absurdamente branca da sua
casa.
*
Com cuidado, fecha-se a porta azul.
Apaga-se a luz.
Sei que este é o único postal sincero que te trago da Grécia:
A mulher de negro dentro de mim.
Grécia, Oia, Agosto de 2016.

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