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Pérsola. O início de tudo

Hoje vou falar-vos da Pérsola. Para quem lê o meu blog-baú de poemas e crónicas, sabe que o amor ( e o seu reverso), são temas recorrentes. Afinal, não é este uma força, que nos motiva/desmotiva, quanto mais não seja o amor próprio? 

Bem, na verdade este é um texto em que o desamor gerou amor e está personificado numa bela mulher chamada Pérsola.

Vamos, tenho agora que dar um pormenor interessante, para que o leitor de olho digital de preguicite aguda, não desista de ler, habituado como está às curtas e empoadas frases das redes sociais. Aqui vai esse detalhe importante, que revela toda a essência do desamor: a Pérsola tinha como apelido “ Exposta”, como aliás, muitas outras crianças que nasceram naquela altura, na Roda dos Expostos. “Exposta” ou “exposto” era o nome que se dava às crianças fruto de relações “proibidas”- ou que a sociedade não aprovava, por exemplo, entre um criado e uma menina burguesa de um colégio de freiras.

Porquê? Aqui chega aquele momento em que o narrador presente acena ao leitor com o seu irritante e previsível “ora leia, caro leitor!”


Edifício “A Roda dos expostos no Porto”, c.1900.

Quem é a Pérsola? 

A Pérsola é a personagem principal do meu livro, nasceu no Porto, na segunda metade do século XIX, fruto de uma relação considerada“imprópria” para a época, entre uma pessoa nobre e uma pessoa que provavelmente trabalharia nessa casa. A velha história da hipocrisia social.

Apesar de ter sido abandonada, a Pérsola teve sorte em três aspectos: no nome, que é sem dúvida original e se um dia tiver uma filha, será o seu nome, na beleza, marcada por uns olhos grandes verdes e um cabelo negro encaracolado, aliado a uma inteligência rara e polida, afinada por um humor negro, inglês, que provavelmente terá herdado de um dos progenitores. A sua educação esmerada para uma criança “exposta”, o que equivalia a um sem ninguém na época, ficou a dever-se ao amor que lhe dedicou uma das freiras por quem foi criada, a Palmira, que colocou nela todo o carinho e amor que a castidade e a comida insossa da messe lhe roubou.

Teve sorte também numa coisa: viveu um daqueles primeiros amores cheios, apimentados pelo sabor que as coisas proibidas têm sempre. Mas a sorte, foi também azar, porque o apaixonado pertencia a uma família muito rica do Porto, que não via com bons olhos este relacionamento.

A Pérsola conheceu-o aos 17 anos. O nome dele tem pouca importância para a história, já que o  que importa é a intensidade do que os dois viveram. Como se conheceram? Ele vivia num casarão de estilo inglês na Cordoaria, que ficava ao lado da Casa da Roda, onde a nossa Pérsola nasceu e onde ia frequentemente, talvez em busca da mãe ou do pai que pudesse aparecer num momento de arrependimento tardio. 

E foi assim que se conheceram, que os seus olhos se encontraram e viram pela primeira vez as cores, o toque, o olfato desse sentimento até então desconhecido para os dois. O mais bonito no sentimento, é que independentemente das classes socias e origens, a idade do Amor Verde é vivida por todos de igual forma intensamente. Contudo, este foi um amor “desaprovado” pelo nariz adunco dos nobres de espírito, como era de esperar.

Bem e é agora que esta crónica ganha contornos novelescos mais trágicos.

Tudo corria bem, as cartas e os encontros eram muitos, mas, aconteceu, o que nenhum dos dois esperava: a Pérsola engravidou. A notícia não foi bem acolhida pela família do noivo, que ainda assim, consentiu em que lhe emprestassem algum dinheiro para que os dois pudessem sustentar-se durante algum tempo. Durante dois anos, viveram um romance feliz, ainda que solitário, já que sem família , à excepção da Palmira, e o noivo com a família de costas voltadas, tinham poucos momentos de convívio social.  Esse excesso de isolamento provocou uma grande depressão na Pérsola, e nele, uma vontade de ir para África ou Brasil para enriquecer, o tema que mais se ouvia pelas ruas e cafés do Porto.

E foi assim, que no ano de 1875, ele, cujo nome não sabemos e não nos interessa, embarcou para o Brasil e nunca mais voltou.

Para trás ficou a Pérsola e uma menina de dois anos, de seu nome Emília, pequena, demasiado magra, muito morena e com um sorriso traquina que iluminava as noites mais frias, carregado de esperança e vida. Como mulher solteira, a Pérsola não teve condições de criar a pequena, que foi entregue à freira Palmira e educada no colégio onde cresceu a mãe.

E agora vem aquela parte em questionamos o leitor e queremos que ele participe: o que aconteceu à Pérsola?

Foi uma de tantas mulheres abandonadas, sujeita a mendigar ou a uma vida precária porque uma mulher a trabalhar era mal vista, ou conheceu uma nova vida, um novo amor, em África, ou noutra parte qualquer do país e do Mundo?

Do pai, Emília teve como única herança a casa da Cordoaria, que duas tias solteironas, apiedadas pela proximidade da morte e mais que provável entrada no inferno por terem feito a vida negra à Pérsola, compraram a sua entrada no céu, oferecendo-lhe o casarão da cordoaria ( que foi mais tarde demolido, para ser construído o Palácio da Justiça).

E foi nessa casa, junto à antiga Casa da Roda, que ela viveu depois de se casar, casa essa onde nasceu a minha avó e onde tudo começou.


Pois é, caro leitor, tudo para chegar ao fim e dizer que afinal a Pérsola é a personagem principal da minha vida, que esmagada pela hipocrisia social, trouxe, apesar disso, amor ao mundo.

Quero acreditar, que no meu sorriso, levo a Pérsola e nele ela vive.

Obrigada Pérsola!

Comentários

Ana disse…
Espero que voltes em breve ao blog, gostei de te ler. Espero, pelas tuas palavras, conhecer um pouco melhor essas personagens. :)

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