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Pianos de mim





(Para a Beatriz) A minha prima pediu-me para neste dia publicar uma carta. Porém decidi escrever esta pequena reflexão sobre a minha ainda curta existência. Para isso tive de recorrer a muitas "mãos" e à música do piano que redescobri em mim. Este texto foi escrito para todas as pessoas que fizeram da palavra amor uma nota de música, jamais esquecida dentro de mim.

(Para Eduardo) Não resisiti a roubar-te a imagem do lago, o lago da minha querida infância...Obrigada peixinho vermelho.

Pianos de mim

Já sentia o que senti com o livro de José Luís Peixoto, “Cemitério de Pianos” há muito tempo. Foi preciso ter passado pela adolescência e pelas múltiplas metamorfoses de mim, em que eu era apenas um corpo de passagem, sempre em construção e desconstrução, para novamente una e cheia de água poder sentir a força de um mundo passado que me habita e me faz ver por dentro sem precisar de um espelho. Terá sido com o filme, “Pianista”, com os nocturnos frios de Chopin que uma mola dentro de mim desactivou toda a catarse de lágrimas que durante muito tempo estiveram adormecidas. Terá sido com Kate Jarret e a sua “My song”, que aquela torrente quente e salgada passou pela minha boca e desceu até às mãos e aos olhos como sangue a desfiar. Terá sido recentemente com Flamenco Jazz que descobri que me apaixonei pelas mãos morenas do Xavier quando escreviam ao meu lado e pelos dedos brancos de mármore e ternos do meu professor de inglês.

Sempre o quente e o frio. Tanta melodia sem voz, mas em cada tecla uma mão de palavras, o meu quarto antigo, a minha boneca preferida, o jardim com o lago de peixes vermelhos onde aprendi a andar, a rua que percorria levada por uma mão até ao lugar onde ouvia palavras dentro de teclas e coisas a acontecer nos meus passos de ballet, tão pequenos e soltos ainda…. Lembro-me da mão grande e protectora do meu pai quando me deixava do outro lado da rua da minha casa. Lembro-me da mão rosada da Dona Rosa, carregada de anéis e gordurosas de carinho quando me vinha buscar ao infantário para o ballet. Lembro-me enfim das minhas mãos na barra de madeira. Lembro-me de que tinha de ter os dois braços abertos em oval e os dedos como se fossem agarrar castanholas. Lembro-me das mãos finas do pianista bonito por quem todas nós nos apaixonávamos no dia dos exames. Lembro-me das mãos duras da examinadora inglesa sobre uma mesa onde só chegava em bicos de pés. Lembro-me das mãos da minha mãe na minha cara e da segurança e do amor que deixava em mim sempre que me tocavam. Lembro-me das mãos do meu pai a comer e a calar as minhas mãos que queriam contar as palavras que tinha aprendido naquele dia na escola. Lembro-me das mãos morenas do meu irmão a brincar com as minhas pequenas e brancas. Lembro-me das mãos da Lena, a educadora, e do seu pulso fino cheio de pulseiras que quando eu a chamava vinham até mim num doce tilintar.


Mais tarde, quando me despedia da última Filipa adolescente e dos beijos do primeiro namorado, a rua do Instituto de inglês, as árvores que dançavam antes de desaparecer na porta e estar diante do professor a tremer de amor. Amor. A mesa de madeira e as mãos finas do Xavier a escrever sobre a revolução francesa ao meu lado. Paixão. As mãos do meu primeiro namorado a segurar um lápis e a desenhar corações com o meu nome. Sonho. As mãos das minhas amigas a segurar-me em noites ou manhãs mais difíceis de suportar. Amizade. As mãos da minha mãe a lambuzarem o meu cabelo de amor, numa momice de mãe. Tudo. As mãos infantis e cheias de sonhos da minha avó sobre os meus cabelos. Cumplicidade. As mãos tímidas do meu irmão a quererem dizer tudo ao mesmo tempo. Inseparabilidade. As minhas mãos escondidas pela manga do casaco ou pelos bolsos, a esconderem todas as lágrimas que não solto. Nascimento.

Tantas mãos que hoje sinto dentro de mim. Tantos sorrisos, tantos choros, tantas histórias, tantas verdades que só existiam em mãos e nunca foram ditas, tanta música, tanta luz e escuridão, tanta coisa que só consigo dizer a chorar quando escuto um piano e as palavras das mãos dentro de mim.

Comentários

Beatriz disse…
LINDO LINDO LINDO! a introspecção e a retrospectiva que todos gostariamos de ter feito. não só deste forma a ti própria neste texto, como te deste forma no melhor dos contextos: entre as pessoas da tua vida. Formidável, prima... muito mais que formidavel...
Unknown disse…
A na música da vida e no sabor do amor regado a jazz as palavras encontram seus donos...

Intensas palavras de lembranças mútuas, despedir e renascer seguindo a corrente...

Adorei.

:*
Teresa Durães disse…
o descobrir e redescobrir da vida!

gostei!

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