Avançar para o conteúdo principal

Um Recife de contrastes

Foto: Filipa Cardoso
(em construção)
Um arco-íris de paralelepípedos colocados como peças de lego entre um matagal tropical de palmeiras e outras árvores de copa exuberante.Este é o quadro de traços realistas que avisto quando acordo do sétimo andar de um prédio situado na zona da Casa Forte. Cá em cima, dentro do apartamento da calorosa família que me acolheu, respira-se a segurança de um arroz com feijão preto a tempo e horas preparado pela empregada de olhos doces. Lá em baixo,um porteiro resguarda o prédio da massa humana que molda as ruas do Brasil de medo,pobreza e tristeza.Como palhaços tristes, lá estão eles nos semáforos à nossa espera com fruta para vender e panos para limpar os vidros escuros que nos esperam. Digo "Nós", porque também eu me faço percorrer pelas ruas do recife num carro de vidros escuros. Como se tivessemos vergonha que nos vissem nas nossas carteiras e óculos escuros, e um medo simultâneo da violência do que não tem e quer ter.Também eu tenho medo. Entre o cheiro fétido das ruas e a maresia de um mar azul, existe o Capiberibi e as pontes que unem uma cidade separada por três ilhas, daí que o Recife seja conhecido pela Veneza brasileira.Junto à margem, as casas coloridas, marca de um passado colonial, alegram o rio em seus reflexos coloridos. Na rua centenas de pessoas circulam, entre vendedores de acerola, tapioca, água de coco e caju. Sente-se a vida da cidade, o frenesim, o optimismo, o sentido da sobrevivência que faz com que tudo o que seja fruto seja vendável, tudo o que se mova, nos faça rir. Bendito Carnaval.

Comentários

Unknown disse…
Este comentário foi removido pelo autor.

Mensagens populares deste blogue

Rosário 280.

Querida Casa, Vou-me embora. É hora de te deixar. 2016-2025. Quando olho para ti, a despir-te das coisas, dos livros, dos quadros, da roupa, das loiças , dos panos de cozinha, da chaleira vermelha, as gavetas ficam abertas como bocas, e misturam no ar tantas coisas,  tantos ecos de risos, tantos solavancos de tristeza, tantos sentimentos e coisas que só tinham nome aqui. E ela chega como a chuva escura do Porto: a minha amiga Nostalgia : A palavra vem do grego  nostos  ("reencontro") e  algos  ("dor, sofrimento"). A dor do reencontro. E é muito isso. Aquela sensação do reencontro de uma peça de roupa perdida, que de repente aparece no armário, vinda de 2017 não sabemos bem em que guerras andou e quando aparece traz-nos uma alegria súbita, logo seguida de uma tristeza pesada, de saber que nao regressamos mais ao tempo daquelas calças levis . E isso é a nostalgia. Como uma máquina do tempo que não sai do mesmo sítio mas para onde podemos olhar, um holograma fodid...

“Quando chove, queríamos poder chorar.”

Primo Levi Com esta frase Primo Levi começa um dos capítulo da sua obra “Se isto é um homem”: Não há nenhum recurso estilístico que o poderia exprimir de outra forma. È assim e ponto final. O escritor italiano continua, descrevendo as chuvas e o cheiro a bolor no mês de Novembro em Auschwitz, no ano de 1944. Um relato duro, incisivo e ao mesmo tempo, tão real, tão humano, tão desumano, que não deixa lugar para floreados. O melhor memorial da Segunda Guerra Mundial, provavelmente o melhor do século XX. Levi fala da sua experiência no campo de concentração, e ao invés de se centrar na relação vítima- dominador, descreve a relação de hierarquia que se estabelece entre os próprios condenados. Afinal, morrer amanhã ou levar pancada de um alemão das SS deixa de ser siginficante quando comparado com o peso da fome, o frio e a necessidade de conseguir mais um naco de pão. Uma visão do Holocausto que de tão real ,choca, fere os olhos, provoca náusea. O único momento em que Levi fala em ...

Chuva e poesia

Por que é que quando chove nos apetece escrever poesia,mesmo que sejam os mais tristes versos?(ou as mais irónicas versões de versos ) Talvez porque hoje esteja a chover sem parar e o Porto pareça um monstro muito zangado com a barba por fazer. Talvez porque o vento seja um tubo de ensaio onde o frio e dor se entrelaçam como uma velha e um gato enroscados no sofá. Ou Talvez porque o que se passa lá fora esteja a acontecer dentro de nós em simultâneo, como essas modernas video-conferências. Ou então, Temos medo que pare de chover e de ver o sol aparecer no meio das nuvens cinzentas. Depois da chuva, os restos da tempestade ficam a dizer-nos adeus do topo dos pauzinhos de relva. Como milhares de estrelas a brilhar no universo da nossa tristeza.