Avançar para o conteúdo principal

Um Recife de contrastes

Foto: Filipa Cardoso
(em construção)
Um arco-íris de paralelepípedos colocados como peças de lego entre um matagal tropical de palmeiras e outras árvores de copa exuberante.Este é o quadro de traços realistas que avisto quando acordo do sétimo andar de um prédio situado na zona da Casa Forte. Cá em cima, dentro do apartamento da calorosa família que me acolheu, respira-se a segurança de um arroz com feijão preto a tempo e horas preparado pela empregada de olhos doces. Lá em baixo,um porteiro resguarda o prédio da massa humana que molda as ruas do Brasil de medo,pobreza e tristeza.Como palhaços tristes, lá estão eles nos semáforos à nossa espera com fruta para vender e panos para limpar os vidros escuros que nos esperam. Digo "Nós", porque também eu me faço percorrer pelas ruas do recife num carro de vidros escuros. Como se tivessemos vergonha que nos vissem nas nossas carteiras e óculos escuros, e um medo simultâneo da violência do que não tem e quer ter.Também eu tenho medo. Entre o cheiro fétido das ruas e a maresia de um mar azul, existe o Capiberibi e as pontes que unem uma cidade separada por três ilhas, daí que o Recife seja conhecido pela Veneza brasileira.Junto à margem, as casas coloridas, marca de um passado colonial, alegram o rio em seus reflexos coloridos. Na rua centenas de pessoas circulam, entre vendedores de acerola, tapioca, água de coco e caju. Sente-se a vida da cidade, o frenesim, o optimismo, o sentido da sobrevivência que faz com que tudo o que seja fruto seja vendável, tudo o que se mova, nos faça rir. Bendito Carnaval.

Comentários

Unknown disse…
Este comentário foi removido pelo autor.

Mensagens populares deste blogue

O tempo de esquecer

Perguntei ao Google quanto tempo era preciso para esquecer. Disse-me que o tempo estava ameno no Porto, 28 graus de máxima, 20 de mínima, vento moderado, 18 graus temperatura do mar. Talvez o tempo de esquecer, seja a sequência de dias que vão passando, os meses que passam ora velozes ora mais devagar, os dias invernosos, a primavera a despontar nos risos das pessoas que deixam de ser tão amargas com a chegada dos dias ao ar livre , e finalmente o verão , a entrar com um sol ardente, a escancarar os as portas com uma luz de cal  e a trazer promessas de dias sem fim . Dias que pelo menos contigo não voltam a acontecer. Talvez o tempo de esquecer sejam as viagens que tenho feito, a sequência de dias de partir, de voar, de entrar no rebuliço de uma estação de comboios, de conhecer novas pessoas, de me esquecer de onde venho e esquecer para onde iria contigo. Talvez o tempo de esquecer seja a playlist dos spotify a passar enquanto corro e me apercebo que há músicas que vão perdendo gra...

Rosário 280.

Querida Casa, Vou-me embora. É hora de te deixar. 2016-2025. Quando olho para ti, a despir-te das coisas, dos livros, dos quadros, da roupa, das loiças , dos panos de cozinha, da chaleira vermelha, as gavetas ficam abertas como bocas, e misturam no ar tantas coisas,  tantos ecos de risos, tantos solavancos de tristeza, tantos sentimentos e coisas que só tinham nome aqui. E ela chega como a chuva escura do Porto: a minha amiga Nostalgia : A palavra vem do grego  nostos  ("reencontro") e  algos  ("dor, sofrimento"). A dor do reencontro. E é muito isso. Aquela sensação do reencontro de uma peça de roupa perdida, que de repente aparece no armário, vinda de 2017 não sabemos bem em que guerras andou e quando aparece traz-nos uma alegria súbita, logo seguida de uma tristeza pesada, de saber que nao regressamos mais ao tempo daquelas calças levis . E isso é a nostalgia. Como uma máquina do tempo que não sai do mesmo sítio mas para onde podemos olhar, um holograma fodid...

Pérsola. O início de tudo

Hoje vou falar-vos da Pérsola. Para quem lê o meu blog-baú de poemas e crónicas, sabe que o amor ( e o seu reverso), são temas recorrentes. Afinal, não é este uma força, que nos motiva/desmotiva, quanto mais não seja o amor próprio?  Bem, na verdade este é um texto em que o desamor gerou amor e está personificado numa bela mulher chamada Pérsola. Vamos, tenho agora que dar um pormenor interessante, para que o leitor de olho digital de preguicite aguda, não desista de ler, habituado como está às curtas e empoadas frases das redes sociais. Aqui vai esse detalhe importante, que revela toda a essência do desamor: a Pérsola tinha como apelido “ Exposta”, como aliás, muitas outras crianças que nasceram naquela altura, na Roda dos Expostos. “Exposta” ou “exposto” era o nome que se dava às crianças fruto de relações “proibidas”- ou que a sociedade não aprovava, por exemplo, entre um criado e uma menina burguesa de um colégio de freiras. Porquê? Aqui chega aquele momento em que o narrado...