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As cartas que nunca te escrevi

A Cyrano de Bergerac
Junho 2005



O S.João é o grito de uma pessoa possessa, louca de amor ou talvez apenas de dor.
Uma noite mágica. Linda.
Pela neblina da ribeira e o negro veludo do céu , viajamos até a um templo dentro de nós. E lá, nesse sítio escuro, de paredes românicas, tudo se desfaz em lágrimas humanas. E em catarse, toda a nossa dor, os pequenos fantasmas que escondemos dentro de nós, começam a suspirar no ar que respiramos, nos beijos que roubamos nas ruas estreitas, nos copos que escorregam turvos na boca que não sabe.
E assim, nesse compasso triste, vamos abrindo o corpo à noite e a alma à brisa rude do rio Douro.
Pouco a pouco, o templo volta a erguer-se, a D.Luís sorri em arcos de luz e as gaivotas,no céu escuro, acenam-nos em piruetas de sonho.
Devagar, a noite vai caindo nos nossos ombros e a manhã surge na nossa boca.

Junho 2006
Um ano passou...
Agora,
olhando sozinha o rio, vejo sombras de asas no lugar dos teus braços, vejo o teu sorriso rasgar-se no vento, e vejo nos gatos que passeiam nos telhados o teu perfil melancólico.
Vejo-me também a mim reflectida na água de prata
Sabes, acho que a minha sombra cresceu. Estou maior em desejos e vontades.. Os meus olhos de menina já não temem uns olhos de gigante como os teus. Porque agora sou tão grande como tu. Maior ainda, porque também o meu coração cresceu e tornou-se muito maior que o teu. Maior, porque posso amar-te sem te ver, posso amar-te sem te tocar, porque posso amar-te mesmo sabendo que não me amas.
É triste a paisagem sem ti. Mas como me ensinaste, “new rains, new loves”.Magia ou não, isso aconteceu de facto. Agradeço-te por isso. Por teres chegado para me mostrares que a beleza da vida está no milagre de vermos a chuva cair, no milagre de nos envolvermos com alguém impossível, no milagre de ver sombras de gaivotas, no milagre de ver o dia nascer, no milgre de acreditar no amor.

Post Scriptum- Pena que já não vejas mais o que eu vejo. Mas obrigada por me teres feito ver o que vi há um ano atrás. E vou ver para sempre.

Comentários

Beatriz disse…
Palavras que contam histórias tão lindas sobre pessoas tão humanas são dificeis de ser comentadas. Porque há aquele tudo que nos apetece partilhar e não conseguimos verbalizar convenientemente...Há a concordancia, as historias tão identicas, as pontes que são outras, as lágrimas que a frio ou a quente nos apeteceu chorar...

Um beijo enorme enviado num envelope selado :)

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