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O dia seguinte
Reflexões


Confeitaria do Bolhão,fim da tarde. Estou sentada nos sofás ao lado de um grupo de senhoras, tratando-se por “Donas” e oferecendo sorrisos de meninas- sorrisos que não vejo nas meninas de 16 e 17 anos que afugentam a rua de S.catarina com a sua indiferença líquida e efémera- , sorrisos que embalam os ramos de flores vermelhas que pintam as paredes verdes.Entra um cantor ambulante de traços ciganos. O som de uma flauta, uma balada italiana que faz dançar os átomos da sala e estremecer o meu cabelo que saiu do chapéu. Uma súbita alegria invade-me, como se um Orfeu tivesse entrado naquela sala para anunciar a Primavera.Estou sozinha, não há razão para o súbito alegrato, pode ser da presença das senhoras felizes ou a lembrança de uma Itália feliz. Não sei. Mas afinal é possível.

Hoje é o meu primeiro dia depois de tudo.
Acabam de entrar duas raparigas. Uma delas, uma antiga colega de trabalho. Discorre na perfeição sobre Kant e sabe um pouco de tudo. Daria uma excelente advogada se não fosse tão revoltada. Ao lado dela, a namorada do amante. Riem-se numa cumplicidade feminina que exclui do seu universo de saldos e mestruações toda e qualquer presença masculina.
A vida é irónica....No fundo sempre foi assim, os flirts da Belle Époque, do século XIX, sujeitos ao abafo das sombrinhas cor-de-rosa.
Ao meu lado as senhoras elegantes começam a trautear uma velha canção. Dizem que vão embora. Também tenho de ir não tarda. A Rute deve estar a minha espera.

Sandra, isso mesmo, o nome da possível advogada amante do namorado da amiga que está sentada ao lado dela. Como o Mundo é tão pútreo....Pergunto-me, Onde param as relações?Um dia conhece-se, conhecimento superficial, no outro namora-se e no outro acaba-se. Uma Versão mais Queirosiana, num dia conhece-se, no outro fazem-se juras de amor eterno, depois o mistério, o tédio e finalmente o amante ou a amante que vem quebrar o tédio.Este Mundo assuta-me e entristece-me. Prometi a Amanda que não ia ficar triste, por isso continuo.
Lembro-me de um Livro do Kundera, “A lentidão”, em que ele dizia que quanto mais rápidas as coisas acontecem, mais rápido é o esquecimento. Isso justifica as muitas amnésias de noites de bebeira, flirts,etc. Esta noite choveu e eu chovi também. Mas hoje o dia brilhou e limpou tudo com um sol que apenas traz as boas memórias. Enquanto isso, tudo é lento à minha volta. Conversas, empregados circualam, pessoas, viajantes entram. Sinto que vejo tudo pela primeira vez. Isso é bom.

Passamos o dia, eu e a queridíssima Amanda numa sessão solene do IPP que fomos cobrir para o Jup. As palavras do Presidente pareciam objectos de tortura para a audiência. Tudo muito formal, com um palavreado de jazigos, medidas, planos, etc...
Foi este o dia seguinte.
Cheguei à faculdade e encontrei o sorriso do Manel. De visita, pois trocou corajosamente jornalismo por um ano a estudar para tentar Medicina. Um sorriso cúmplice, que nos faz encontrar a pessoa tão poucas vezes, e saber tudo nesses starrings de momento. Não estive com a tribo, entenda.-se, a Luana e a Vanessa. Mas curiosamente foi até bom. Apercebo-me cada vez mais que nestas alturas mais do que os amigos, é a própria vida, a rotina, que nos ajuda a superar, são as ruas, o quiosque vermelho lá no cimo, o cego da concertina na esquina, o cheiro, a luz, as janelas, o ar do Porto. Tudo me faz sentir tão grande, tão só, mas tão Eu.

Apetece-me um cigarro. Devo pedir à amante do namorado, ou à namorada do amante da amiga?Não. Não me apetece falar e sorrir um sorriso que não é o meu. Hoje mais do que tudo não quero ver pessoas. Quero sentir as ruas e as ambiências. Hoje estou nua. Como água, só quero ruas por onde passar e deixar-me fluir.
Está na hora. Vou para o Asa, o café dos intervalos do Cambridge. Já lá não está o Senhor Álvaro, o empregado das gravatas dos Mickeys. Mas está um não sei o quê que me abraça, que me completa, e que faz deste dia, o dia seguinte.

Comentários

A. disse…
Para ti, o meu sorriso. E a certeza de que cumpres as promessas.

O mundo é demasiado belo para se ver triste nos teus olhos. E vice-versa.

Um beijinho sinergético e matricial :>
Beatriz disse…
Escreves como precisamos tantas vezes que escrevam para nós. Para nos enchermos da magia de qualquer coisa que, no quotidiano, nos passou ao lado e que viemos aqui descobrir que existe.
O engraçado na minha relação com este mundinho putreo é que, pelos olhos de Eça, a sociedade vestia-se com um glamour muito próprio, enfeitada com a efemeridade das coisas, com o decadentismo dos valores... Hoje... não gosto que as coisas sejam assim. Parece que as vejo a uma lupa de aumento.
Porém... faz bem parar. Escutar nas entrelinhas das ambiências e das ruas a intencionalidade das pessoas. As nossas principalmente. Reflectir num cigarro pensativo. Pensar em nós nas decisões prestes a ter-se ou acabadinhas de se ter.
É nesses dias, em que dou por mim a fazer um intervalo à rotina, na pastelaria de esquina certa, que tenho a certeza que uma das coisas melhores da vida é pudermos recomeçar do zero a qualquer instante... :)
Anónimo disse…
Passei por aqui pelas mãos da Beatriz. As ruas e os cenários são-me bem familiares. O Jornalismo também... as estórias, os caminhos, os nomes, coincidências de leituras e imagens... Muitas vezes me sentei ali. E pensei, só não escrevi.

Olha, adorei tudo. :)

Beijinhos*

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