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A Luz do Porto



A Luz do Porto





Conhecida pelo seu brilho de pérola , a luz de Lisboa é já um símbolo incontestável da dona e senhora do país. Não esconde o seu desejo divino de transcendência. Afinal, carrega em si o fatum de ser filha da capital. Prova disso é o Tejo no seu largo espelho reflector.Aos alfacinhas cabe o papel de guardiões: narcísicos na contemplação do rio, esquecem-se de olhar mais além.
O Porto também tem a sua luz. Os guardiões da luz de Lisboa, apoiados na sua bengala, decidiram catalogar a Invicta com os termos “chuvosa” e “escura”. Palavras que se escondem no guarda-chuva invejoso da capital. Palavras que são como bátegas, daquelas que vêm de rompante e desaparecem com o sol que pinta de bronze as margens do Douro. E é essa a luz que experimento quando me perco neste pensamento, quando percorro a Mouzinho da Silveira até à ribeira , quando atravesso os jardins do Palácio e me sento num banco vermelho e vejo, pela fresta dos velhos chorões, a luz mesclada de pequenos fios de ouro que dá ao Porto a sua névoa misteriosa. Não, acalmem-se os senhores de Belém, já com os seus bastões a defender a legitimidade da sua luz..A Luz da velha Invicta é muito diferente e não pretende ser protagonista.. Vale a pena parar na Ribeira só para a ver dançar no rio Douro. Não é uma luz aberta num leque de 180º, nem de tons cálidos e ascendentes como o rosto da virgem Maria.Não é também da mesma tonalidade lunar que ofusca as estrelas lá em cima.Como é então? É uma luz que encerra em si o tempo, as histórias do Porto na sua idade de oiro e no seu retrocesso,das invasões napoleónicas, do comércio do vinho do Porto à revolução liberal,é a vida de uma cidade que esmorece na cor e ganha encanto na beleza que conserva de outros dias. Bebe-se como um bom Porto servido por uma pessoa que nos é querida. Daí ter que ser necessariamente mais rude, mais castanha, mais insistente.Tal como o é a sua gente: de alma ferida, mas com os braços e a voz levantados para defender o seu passado, o seu presente e o seu futuro. Um povo de pessoas simples que sorriem com rugas, sacos nas mãos e olhos de amor. Pessoas que nada têm a ver com as mil e uma crónicas sobre o Porto e a sua crise económica, falta de investimentos ou desertificação. São pessoas que respondem com um sotaque forte e agreste a todas as vozes que tentam derrubar o castelo de sonhos e luta em que a Invicta se construiu.


Não, guardiões da Luz Branca, não me esqueci de vocês. Falta revelar a última grande característica da luz do Porto.. Caros senhores, a principal grande diferença das nossas luzes não se prende já com a estética, história ou filosofia de um povo, mas sim com a atitude de quem se expõe à luz. A luz branca da capital incide nos olhos, é tal o ângulo da sua abertura que antes mesmo de a sabermos, já fechamos os olhos.É certo que é envolvente,bastante física, mas perde todo o encanto quando se entrega assim de bandeja.
A Luz do Porto não. É mais recatada.Escondida nas manhãs de nevoeiro, chega até nós nos passos tímidos de uma menina a pedir um beijo. .É uma luz que vem de dentro.Incide directamente no coração. Só depois fechamos os olhos.

Comentários

André Lamelas disse…
quanta beleza, Filipa! muito bonito. mas também, com uma cidade como a nossa, só dá vontade de escrever coisas bonitas. :p

um beijinho para si*
Beatriz disse…
:)
só quem não tem a capacidade inata de se apaixonar poderia desrespeitar ambas as Luzes, diminuir uma em exclusividade da outra, ignorar a magia que rodeia cada lugar. Na verdade... o meu primeiro amor foi Lisboa. E tenho muitas peripécias deste amor sempre tão desigual e injusto, tão deslumbrado e devoto. Mas vivo com a saudade de uma paixão de Verão cada vez que em mim se soletra o nome o cheiro e o sabor do Porto. Ás vezes chego mesmo a ter vontade que Lisboa tivesse um bocadinho mais de Porto em si.
Quem se dá ao luxo de conhecer e de dizer a verdade, não pode deixar de admirar ambas as Luzes. E de querer conhece-las mais de perto :)

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