A Luz do Porto
Conhecida pelo seu brilho de pérola , a luz de Lisboa é já um símbolo incontestável da dona e senhora do país. Não esconde o seu desejo divino de transcendência. Afinal, carrega em si o fatum de ser filha da capital. Prova disso é o Tejo no seu largo espelho reflector.Aos alfacinhas cabe o papel de guardiões: narcísicos na contemplação do rio, esquecem-se de olhar mais além.
O Porto também tem a sua luz. Os guardiões da luz de Lisboa, apoiados na sua bengala, decidiram catalogar a Invicta com os termos “chuvosa” e “escura”. Palavras que se escondem no guarda-chuva invejoso da capital. Palavras que são como bátegas, daquelas que vêm de rompante e desaparecem com o sol que pinta de bronze as margens do Douro. E é essa a luz que experimento quando me perco neste pensamento, quando percorro a Mouzinho da Silveira até à ribeira , quando atravesso os jardins do Palácio e me sento num banco vermelho e vejo, pela fresta dos velhos chorões, a luz mesclada de pequenos fios de ouro que dá ao Porto a sua névoa misteriosa. Não, acalmem-se os senhores de Belém, já com os seus bastões a defender a legitimidade da sua luz..A Luz da velha Invicta é muito diferente e não pretende ser protagonista.. Vale a pena parar na Ribeira só para a ver dançar no rio Douro. Não é uma luz aberta num leque de
Não, guardiões da Luz Branca, não me esqueci de vocês. Falta revelar a última grande característica da luz do Porto.. Caros senhores, a principal grande diferença das nossas luzes não se prende já com a estética, história ou filosofia de um povo, mas sim com a atitude de quem se expõe à luz. A luz branca da capital incide nos olhos, é tal o ângulo da sua abertura que antes mesmo de a sabermos, já fechamos os olhos.É certo que é envolvente,bastante física, mas perde todo o encanto quando se entrega assim de bandeja.
A Luz do Porto não. É mais recatada.Escondida nas manhãs de nevoeiro, chega até nós nos passos tímidos de uma menina a pedir um beijo. .É uma luz que vem de dentro.Incide directamente no coração. Só depois fechamos os olhos.
Comentários
um beijinho para si*
só quem não tem a capacidade inata de se apaixonar poderia desrespeitar ambas as Luzes, diminuir uma em exclusividade da outra, ignorar a magia que rodeia cada lugar. Na verdade... o meu primeiro amor foi Lisboa. E tenho muitas peripécias deste amor sempre tão desigual e injusto, tão deslumbrado e devoto. Mas vivo com a saudade de uma paixão de Verão cada vez que em mim se soletra o nome o cheiro e o sabor do Porto. Ás vezes chego mesmo a ter vontade que Lisboa tivesse um bocadinho mais de Porto em si.
Quem se dá ao luxo de conhecer e de dizer a verdade, não pode deixar de admirar ambas as Luzes. E de querer conhece-las mais de perto :)